A DESCOBERTA DE UMA NOVA BELEZA

Ao receber o diagnóstico de câncer de mama a mulher enfrenta um turbilhão de emoções, sabe que enfrentará um tratamento longo, quimioterapia, radioterapia, medicamentos, cirurgias, mas a mais cruel
para muitas é o risco de perder os símbolos femininos: cabelos e seios; muitas enfrentam a mastectomia (a cirurgia de retirada das mamas) para salvar suas vidas.

Neste momento é preciso urgentemente resgatar a autoestima. A maioria não consegue reconstrução imediata e não encontra no mercado lingerie que valorize, um sutiã que resgate a sensação de ser linda como sempre foi e continuará sendo.

A estudante de Moda, Ana Claudia Nalini, 21, em seu trabalho de conclusão de curso para a Universidade Anhembi Morumbi, criou uma coleção de lingerie que resgata a autoestima de mulheres que se submeteram à mastectomia. São confortáveis, valorizam o corpo, a sensualidade e trazem o sorriso de volta às guerreiras que passam por uma fase que um dia termina.

Ana criou as peças por abraçar a causa e se inspirou no projeto Quimioterapia e Beleza, da escritora Flávia Flores, que passou pela mastectomia radical em 2012. “Depois de muita pesquisa percebi que as
peças sensuais não existem no mercado, o que encontrei foram lingeries com encaixe para próteses externas que podem ser usadas por mulheres que não passaram pelo câncer ou que já reconstruíram as mamas, mas eram sem graça, não tinham a sensualidade que as peças pedem”, conta.
Após as confecções das peças, foi feito um ensaio fotográfico com inspiração nos anos 50, rockabilli e pin-up com a participação de Flávia Flores e das pacientes do Hospital Pérola Byington em São Paulo.

Nossa reportagem entrevistou a criadora da coleção “A descoberta de uma nova beleza”, Ana Claudia Nalini.

Quimioterapia e Beleza: Como surgiu a ideia de usar mulheres com câncer de mama para seu 
estudo? 
Ana Claudia: Meu desejo inicial para o projeto era abordar assuntos que tivessem ligação com feminilidade e toda a trajetória da mulher ao longo da história. Por isso, os estudos começam com o tema Feminismo, guiando até o objeto de estudo O Sutiã, uma das peças mais importantes do vestuário feminino, que possui diversas simbologias, entre estas, o de sedução, mistério e erotismo. Depois de estudar mais a fundo essa peça, cheguei à conclusão de que todas as mulheres possuem a necessidade de se sentirem bonitas e sensuais, seja está uma beleza que segue os padrões midiáticos ou não. A partir daí surgiu a ideia de desenvolver uma coleção de lingeries para mulheres com câncer de mama. Essa doença é a que mais mexe com esses padrões de beleza, as deixam fragilizadas durante o tratamento e isso resulta em uma baixa autoestima.  Foi nesse momento que pensei: Por que não levar mais beleza para quem necessita tanto?! Afinal, não é fácil enfrentar um câncer, e para uma mulher é mais difícil ainda ter que lidar com a possibilidade de ficar feia. É como se nossa feminilidade deixasse de existir.

QeB: Alguma pessoa próxima a você passou por isso? 
AC: Não, na verdade eu não sabia muito sobre o assunto. Esse interesse foi depois de iniciar as pesquisas do meu projeto. Quando tive a ideia, não sabia nem por onde começar. Por acaso, estava na livraria e vi o livro da Flávia exposto, a capa me chamou muito atenção, pois se tratava de uma mulher sem os cabelos. Assim que li o título, o comprei imediatamente. No mesmo dia, li o livro inteiro! Depois da leitura eu só acabei me interessando mais pelo assunto, pois tive a oportunidade de entender claramente como é esse processo da doença e descobrir o mais importante: É possível, sim, se sentir bonita durante o tratamento! Em seguida, as pesquisas só foram se estendendo mais, com diversas entrevistas com pacientes e pude descobrir seus desejos e necessidades.

QeB: Você pretende comercializar as peças? 
AC: Sim, com certeza! Assim como a Flávia com Quimioterapia e Beleza, entendo isso como uma missão. Além de fazer o que eu mais gosto, que é trabalhar com moda, vou ter a oportunidade de levar mais alegria e beleza para essas mulheres. Infelizmente esse mercado ainda é muito carente, existem algumas marcas que já possuem um olhar para essas mulheres, porém ainda são poucas. Aqui no nosso país o que encontramos mais são aqueles sutiãs “pós-cirúrgicos”. Após a retirada da mama, essas mulheres não sentem vontade de usar um sutiã desses, pois já estão fragilizadas. Para que sua autoestima não seja ainda mais afetada, elas sentem a necessidade de usar uma lingerie com um design inovador, tendo a possibilidade de escolher de acordo com seu gosto.

QeB: Que mensagem você deixa para as mulheres que poderão vir a usar suas peças?
AC: Independentemente do tipo de beleza, qualquer mulher pode se sentir bonita e sensual, basta ela se amar em primeiro lugar, pois a beleza mais profunda e verdadeira sempre está dentro de nós, basta apenas dar uma atenção especial a ela. O que proponho com a minha marca? Apenas complementar essa beleza.