ELGE WERNECK: O CÂNCER MUITO ALÉM DO PRÓPRIO PACIENTE

O processo do adoecimento traz consigo inúmeras ansiedades e medos, mesmo quando a doença é uma patologia benigna, sem maiores complicações, os sentimentos habitualmente precedem o diagnóstico, sendo deixados de lado a medida que tomamos consciência da real gravidade (ou não) do quadro em questão.
Entretanto, quando a doença que acomete o paciente é o câncer, a tendência é que esses sentimentos negativos sejam amplificados com seu diagnóstico e sofram uma série de transformações com o decorrer do tratamento.
Elisabeth Kubler-Ross, falecida pesquisadora suíça, que trabalhou durante décadas com o processo adaptativo no luto (entre os quais, inclui-se o adoecer), afirmava que, definido como um mecanismo de preenchimento de uma perda e fundamental a nova realidade daquele indivíduo, o luto decorre de uma gama de ocasiões, dentre as quais já citamos a doença, mas também de problemas financeiros, mudanças de rotinas de vida, rupturas amorosas entre outras. Todos os acontecimentos que culminam na redução ou suspensão de alguma forma de contato que se encontrava em uma “zona de conforto”, remete o ser humano ao sentimento da dor, justamente por encontrar na ausência um risco para aquilo que o deixava feliz e realizado. Uma vez que se considera a saúde o que há de mais nobre, provavelmente decorra desta perda a maior expressão do luto. A autora, após observar e estudar a relação do fato com as consequências aplicadas ao indivíduo, classificou o luto em 5 fases:
1) A negação: surge a primeira fase do luto, é no momento em que nos parece impossível a perda, em que não somos capazes de acreditar. A dor da perda seria tão grande que não poderia ser real;
2) A raiva: surge depois da negação, mas mesmo assim, apesar da perda já consumada, negamo-nos a acreditar. Pensamentos de por que comigo? surgem nesta fase, como também sentimentos de inveja; qualquer palavra de conforto parece-nos falsa, sendo difícil acreditar em sua veracidade;
3) A negociação: surge quando o indivíduo começa a enxergar a hipótese da perda e, perante isso, tenta negociar, a maioria das vezes com Deus, para que não seja verdade. Tais negociações são sempre sob forma de promessas ou sacrifícios;
4) A depressão: surge quando o indivíduo se dá conta de que a perda é inevitável e incontornável. Não há como escapar a ela, assim, sente-se o espaço vazio deixado pela pessoa (ou coisa) perdida e se toma consciência de que nunca mais irá ver aquela pessoa (ou coisa), e, com o desaparecimento dela, vão juntos todos os sonhos, projetos e lembranças associados;
5) A aceitação,última fase do luto. Ela ocorre quando a pessoa aceita a perda com paz e serenidade, sem desespero nem negação, o espaço vazio deixado pela perda é preenchido. Esta fase depende muito da capacidade da pessoa mudar a perspectiva e preencher o vazio.  O diagnóstico do câncer, desde o início dos sintomas ou a partir de achados silenciosos de exames de rotina, é associado a uma forma de medo muito grande, que, não raramente, manifesta-se como pânico, e talvez, constitua uma das formas mais claras de exemplificar o luto e as fases a ele atribuídas.   Há aqueles pacientes que optam pelo silêncio inquebrável, como também, encontramos outros que preferem se abrir com todos que os rodeiam. A fase do tratamento não é mais simples ou menos pesada que o choque do diagnóstico. Apesar do desespero inicial habitualmente não ser mais tão intenso, a morbidade atribuída aos mecanismos terapêuticos como cirurgias extensas, quimioterapia e radioterapia faz com que os pacientes padeçam de uma ansiedade muito grande. É uma fase em que a dor física se associa ao sofrimento emocional e tornam acentuados aqueles sentimentos que tenderiam a ser mais leves.O desfecho do tratamento é a última fase desse processo que se iniciou no diagnóstico e se divide em duas frentes completamente distintas: a cura ou a terminalidade da vida.

É óbvia a expectativa gerada por essa polaridade.

Mas o que faz com que o paciente A que enfrenta de forma diferente, mais leve e menos sofrida essa situação do que o paciente B?  O que leva o paciente a não ter raiva e o outro a manifestá-la continuamente durante seu tratamento? Essa talvez seja a grande dúvida e a resposta mais buscada por todos aqueles vinculados ao processo de cuidar.
O conhecimento desse questionamento conseguiria uniformizar tratamentos, tanto físicos como emocionais, buscando oferecer a todos os pacientes uma excelência de serenidade para o enfrentamento dessa fase de vida. Embora ainda não reconheçamos essas respostas, alguns fatos são claros e influenciam nesse curso. A individualidade marcada aqui pela expressão genética e pela interferência do meio em que o cidadão vive, configura peculiaridades que por si só são capazes de explicar quão diferentes são as reações perante o câncer. Visto que a expressão genética é imutável (são as características que temos trazidas pelos nossos genes: cor do cabelo, altura, inteligência etc.), o meio ambiente e social no qual o paciente está inserido é a chave para fortalecê-lo e torná-lo mais preparado para essa luta, e nada constitui de forma mais importante esse meio do que a família.  A relação existente entre o paciente e sua família, definida aqui como aqueles entes com parentesco consanguíneo, é de suma importância em todo esse processo. Olhando pelo lado médico, a presença da família transmite segurança à medida que todas as responsabilidades pelo tratamento e desfecho do caso serão divididas. Oferece um meio de comunicação transparente para aqueles momentos críticos e informações as quais poderão interferir no humor do doente. Já pela ótica do paciente, é a família, na grande maioria das vezes, a responsável pelo primeiro desabafo ao surgimento dos sintomas ou achado de exame; é ela o acompanhante da primeira consulta, da segunda opinião, da definição de onde e com quem será feito o tratamento, de qual opção terapêutica será a escolhida; é com ela que o paciente estará na antessala cirúrgica ou no apartamento para receber a quimioterapia; é dela a opinião sobre qual lenço ou peruca lhe caiu melhor; é nela que está depositada a confiança pela solução de problemas em momentos nos quais estiver impossibilitado e é com ela que se espera receber palavras de cura ou estar nos momentos mais críticos do tratamento.
Esses momentos acima citados, abrangem todas as fases do luto, desde a negação, passando pela raiva, negociação e depressão, até atingir a aceitação, nada mais são que sensações vividas durante o processo de doença. Muitas das vezes eles se misturam, sobrepõe-se, duram mais ou menos, mas uma característica lhes é comum em praticamente todos os pacientes: aqueles que mantém uma relação sólida e harmoniosa com sua família aceitam e enfrentam de maneira muito mais clara esse período. Não que eles sofram menos ou que tenham menos efeitos colaterais, mas geralmente são tomados por um objetivo de superação muito grande, focados na manutenção daquele elo e nas responsabilidades familiares, como a formatura de um filho, um casamento de outra filha, o nascimento do neto e assim por diante. O vínculo familiar oferece substrato energético emocional para a manutenção da luta e advém desse laço o estímulo para as várias crises de desânimo que invariavelmente ocorrerão. Além disso, há várias publicações na literatura que confirmam que seres humanos envolvidos com suas famílias são mais felizes e padecem menos de depressão. Esta, que a cada dia acomete mais e mais pessoas em fases mais precoces da vida, parece estar relacionada com redução de imunidade e níveis mais baixos de células de defesa orgânica. Talvez decorra dessa associação o fato de que aqueles pacientes envolvidos nesse elo familiar tenham melhor aceitação e tolerância ao tratamento.  Assim, vista a amplitude desse cenário, o qual se estende da ansiedade pré-diagnóstica à aceitação da doença e reconhecendo o doente como um ser humano repleto de sentimentos e afazeres, é que concluímos o quanto a família é a principal alavanca de apoio. O reconhecimento da frustração, a consciência da dificuldade de tolerância ao tratamento até a lucidez pela recuperação, situações do dia a dia de um paciente oncológico, confirmam que esses entes mais próximos são de extrema importância nessa trajetória.
Cuide de quem você ama. Ame quem lhe cuida. A estrada será mais leve, tenha certeza.