SEXUALIDADE DA MULHER COM CÂNCER

Quando uma pessoa recebe um diagnóstico de câncer, automaticamente sente-se insegura, com medo, com sensação de desamparo e desespero, com fantasias negativas e receio de morrer. A necessidade de um tratamento quimioterápico reforça e hiperdimensiona estes fantasmas. Por instinto, tendemos a preservar o que é vital: não podemos parar de nos alimentar, de dormir, de ter cuidados básicos de higiene. Mas sexo… sexo não é vital! Não constitui um requisito indispensável para sobrevivência, e por isso é deixado de lado. Para a maioria das pessoas (inclusive aquelas em tratamento e alguns profissionais da saúde) uma mulher em quimioterapia não tem fantasias sexuais, não é desejada, não é sexy nem atraente e não faz sexo!

A prevalência de dificuldades sexuais é de aproximadamente 40% nas mulheres, e chega a 80% naquelas com câncer. Nestas, a resposta sexual depende de um conjunto de fatores: sociais, culturais, religiosos, onde é o câncer, tipo de tratamento necessário, características pessoais e preexistência de alguma dificuldade sexual. Manter-se sexualmente ativo durante o tratamento quimioterápico é importante, pois ajuda a se sentir amado e desejado, melhora a autoestima, induz a relaxamento, reforça que não estamos sós, contribui para manter uma adequada qualidade de vida.

A quimioterapia pode gerar fadiga (cansaço em geral e menos energia para o sexo) e se relacionar à diminuição do desejo e estimulação sexual, surgimento de desconforto (e até dor) durante a relação e dificuldade em atingir o orgasmo. No entanto, a maioria das queixas sexuais surgidas neste momento não se deve diretamente à quimioterapia, mas a fatores ligados à doença e ao estigma de seu tratamento, como surgimento de depressão, preocupação com mudança em sua imagem corporal, comprometimento na autoconfiança, dificuldades prévias no entrosamento do casal ou na relação sexual. Aquelas que se abstêm do sexo lamentam pela perda de intimidade (relacional e sexual) e sentem-se frustradas, com medo de serem abandonadas pelo parceiro.

Na prática, percebe-se maior ocorrência de atrofia genital (ressecamento, menor elasticidade e umidade da vagina), dificultando ou até comprometendo a penetração. A relação precisa de mais preliminares para que o sexo não seja doloroso. Atualmente existem no mercado vários produtos úteis para a mulher que está com câncer e em tratamento quimioterápico, como hidratantes genitais, lubrificantes, hormônios para uso vaginal. Mas lembre-se de que o sexo não se resume à penetração do pênis na vagina. Nossa sexualidade é muito maior do que isso. Engloba dar e receber carinho, beijar, abraçar, acariciar e todas as demais formas de expressão da sexualidade, fundamentais para que um casal se mantenha próximo.

As intervenções realizadas neste momento devem ser destinadas a reduzir o sofrimento e melhorar não só a quantidade, como a qualidade devida em geral, inclusive no âmbito sexual. Se você está enfrentando alguma dificuldade na esfera sexual, ou se foi diagnosticada com câncer e está ou iniciará tratamento quimioterápico, converse com seu médico sobre seus receios, angústias, dúvidas e alternativas para minimizar qualquer efeito indesejado. Ele certamente poderá lhe ajudar. E, se necessário, procure a ajuda de um profissional especializado na área de Sexologia. É importante permanecer sexualmente ativa durante este período. O casal deve estimular sua comunicação, compartilhar desejos (e a falta deles) e fazer com que esta fase sirva para melhorar sua relação como um todo. Muitas vezes precisamos renovar votos, reinventar a vida a dois, re-priorizar e re-negociar o sexo para revigorar a relação. Reinventar a nós mesmos. Viver uma resiliência sexual.

(Texto escrito por: Dra Florence Marques, ginecologista e sexóloga)