ADEUS, DAVID BOWIE

Hoje o dia amanheceu cinzento e chuvoso. A notícia que dei de cara foi chocante e inesperada:

“O cantor britânico David Bowie morreu na noite de domingo (10). De acordo com uma nota oficial publicada na página oficial do cantor no Facebook, Bowie batalhava contra o câncer há 18 meses. O cantor havia completado 69 anos na sexta-feira (8), quando também lançou seu último álbum, Blackstar. O produtor e amigo de Bowie, Tony Visconti, revelou à BBC que Blackstar foi seu presente de despedida para o mundo. “Sua morte não foi diferente de sua vida – um trabalho de arte. Ele fez Blackstar para nós, seu presente de despedida”, disse.” (Fonte: Época).

Eu, uma fã do artista, me abalei. Bowie fez parte da minha vida de forma ativa. Foi meu primeiro amor platônico, e as músicas eram trilhas sonoras para minha vida. Hoje acordei emocionada, como se uma energia me tocasse. Ele era uma figura única, de muito talento e explosão artística. Era força, coragem, tudo em um ser só. Quem não conhece o raio no rosto? Ele era raio! Não podia de deixar aqui registrado minha homenagem ao artista. Hoje logo cedo encontrei meu amigo Wladmir DalBó e fizemos essa foto que tanto represente esse dia, esse momento, esse artista, esse sentimento.

Heroes, uma das minhas músicas favoritas do artista:

Se você não conhece muito do artista, recomendo a matéria da Folha conta sobre a vida dele – e acredite, vale a pena conhecer:

“Bandas medianas de rock costumam lançar um ótimo primeiro disco. Mas, em geral, essa estreia é sua obra-prima e os caras nunca mais conseguem chegar ao patamar inicial.Grandes compositores, por outro lado, melhoram com o tempo. Mas o primeiro disco, invariavelmente, já causa um bom estrago.David Bowie, curiosamente, não. Lançou três discos ordinários, conquistou um sucesso, e parecia fadado a engrossar a gigantesca lista de cantores de um hit só.

É um enorme espanto que, com um começo tão pouco promissor, o inglês tenha se tornado um dos maiores artistas que o mundo pop forneceu não só à cultura, mas aos costumes do século 20.

Afinal, caso você estivesse respirando o ar dos anos 1960, nada indicava que Bowie seria esse fenômeno, que ganhou o apelido de camaleão do rock, misturando o gênero com soul, depois com disco e finalmente com música eletrônica.

Mais do que Beatles ou Bob Dylan, Bowie se destacou por fazer algo além de rock. Arquitetava colaborações com designers, fotógrafos e cineastas e devolvia músicas, mas também modas (o cabelo vermelho arrepiado em cima e batido do lado), imagens (um raio colorido no rosto) e filmes (vide o longa “O Homem que Caiu na Terra”, de Nicolas Roeg, 1976).

INÍCIO MEDÍOCRE

David Robert Jones tinha 15 anos quando montou sua primeira banda, em 1962, mas nenhuma das cinco ou seis das quais participou deu em algo. Logo adotou o Bowie devido à semelhança com o músico Davy Jones, do Monkees.

O sobrenome veio de uma fabricante de facas, e ele aproveitou para espalhar a lenda de que havia sido ferido na vista por uma faca dessa marca, daí o fato de ter a íris do olho direito bem mais dilatada que o normal.
Outra história vem do fato de que a faca Bowie tem gumes dos dois lados, no que seria uma alusão ao bissexualismo do artista.

Seja como for, seu primeiro álbum solo, que leva seu nome, de 1967, é tão ruim que nem mesmo os fanáticos que se vestem como Ziggy Stardust (um de seus personagens) ou pintam o rosto como Aladdin Sane (outro) se lembram que existe. Foi devidamente esquecido.

Os dois seguintes também não brilham, e pouco se salva neles além das músicas que dão título aos discos: “Space Oddity” (1969) e “The Man Who Sold the World” (1970).

“Space Oddity” é ainda hoje uma de suas canções inesquecíveis. Bowie a compôs após assistir a “2001” Uma Odisseia no Espaço” (1968) e conta a história de um astronauta que sai de sua cápsula e não consegue retornar.

Mais do que isso, na primeira jogada de marketing do artista (uma de suas especialidades futuras), foi lançada junto com o primeiro pouso lunar tripulado por humanos, da Apolo 11, em 20 de julho de 1969.

Já “The Man Who Sold the World” é famosa pela versão acústica do Nirvana, de 1993. Mas, em 1970, o que realmente chamou a atenção foi a capa do álbum, com Bowie deitado languidamente em um divã e usando vestido longo.

ZIGGY PÓ DAS ESTRELAS

Foi só a partir do final de 1971 que David começaria a se tornar Bowie. Estava casado com Angela Bowie (a provável “Angie” da canção dos Rolling Stones), tinha um filho a caminho (Zowie, que se tornaria o cineasta Duncan Jones). E estava prestes a fazer 25 anos, idade já bastante considerável no universo juvenil do rock.

Mas os discos “Hunky Dory” e “The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars” finalmente o colocaram no alto. Daí, e até o final dos anos 1980, todos os seus álbuns frequentariam a lista dos 10 mais vendidos na Inglaterra.

Infográfico: David Bowie – discografia

De “Hunk Dory” (1971), as canções “Changes” e “Life on Mars?” transformaram Bowie em astro.

Já “Ziggy Stardust” (1972) –um álbum conceitual que narra em 11 canções a história de um alienígena roqueiro na Terra, em 11 canções como a faixa-título e “Starman”– o transformou em ícone.

Teatrais, os shows apresentavam Bowie na pele do próprio Ziggy, o primeiro de vários personagens que encarnaria durante a carreira. A jogada atraiu seguidores de todo o mundo, enquanto seu visual magérrimo, com meia arrastão e cabelos vermelhos, começou a ser copiado incessantemente.

Em 1973, foi lançado um filme com a última apresentação dessa turnê histórica, a mais importante de sua carreira.

Foi uma época em que o talento incubado de Bowie jorrava para todos os lados. Em 1972, atravessou o Atlântico e, ao lado de Mick Ronson (o guitarrista de Ziggy Stardust), produziu “Transformer”, de seu ídolo Lou Reed.

O álbum, que apresentou ao mundo nada menos que os clássicos “Walk on the Wild Side”, “Sattelite of Love” e “Perfect Day”, tirou Reed do ostracismo cult e o alçou a estrela mundial.

Cinco anos depois, ele faria exatamente o mesmo com outro de seus heróis, Iggy Pop. Bowie co-escreveu e produziu os dois primeiros álbuns solo do ex-Stooges, “The Idiot” e “Lust for Life”, ambos de 1977, e resgatou Iggy do anonimato, dando-lhe uma roupagem de artista mais refinado que resiste até hoje.

EUA E ALEMANHA

O sucesso mundial com Ziggy Stardust abriu o horizonte de Bowie, cujo disco seguinte foi gravado em Londres, Nova York e Nashville. “Alladin Sane”, de 1973, trazia um jogo de palavras com os EUA, “a land insane” (uma terra insana), e colocou um álbum do artista pela primeira vez no topo da parada britânica. Na capa, Bowie aparece com o famoso raio azul e vermelho pintado no rosto.

Seguiram-se o LP de covers sessentistas “Pin Ups” (1973) e “Diamond Dogs” (1974), outro trabalho conceitual, desta vez traduzindo em versos e canções o livro “1984”, de George Orwell. Ambos alcançaram o primeiro lugar na Inglaterra.

É nesse momento de grande sucesso em sua terra natal que Bowie a abandona. Muda-se para os Estados Unidos e, lá, grava dois álbuns inspirados na música norte-americana, “Young Americans” (1975) e “Station to Station” (1976), abraçando o funk, o soul e assumindo um novo personagem, chamada The Thin White Duke.

Neste último álbum, gravado sob alto consumo de cocaína, Bowie começava a se aproximar do rock minimalista baseado em sintetizadores que seriam a força propulsora de seus próximos três discos.

Buscando novo ambiente para se livrar das drogas, mudou-se para Alemanha e, em parceria com Brian Eno, gravou entre 1977 e 1979 a chamada “trilogia de Berlim”. “Low”, “Heroes” e “Lodger” são álbuns mais complexos, com menos hits, mas festejados na época e lembrados até hoje como alguns dos melhores de sua carreira.

MEGA-SUCESSO

Apesar de a trilogia de Berlim ter vendido bem na Inglaterra (respectivamente em segundo, terceiro e quarto lugar nas paradas), atraiu bem menos interesse do resto do mundo.

Em 1980, no entanto, Bowie voltou a aliar sucesso comercial e ótimas críticas pelo álbum “Scary Monster (and Super Creeps)”. Neste ano, também se divorciou de Angie. Foi uma época com diversos hits, como “Ashes to Ashes”, “Under Pressure” (com o Queen), “Modern Love”, “China Girl” e Let’s Dance”, que daria nome ao álbum de 1983.

Bowie havia se tornado uma megaestrela mundial. O resto dos anos 1980 viu grandes canções lançadas em álbuns (“Blue Jean”, “Never Let me Down”), em filmes (“This is Not America”, “Absolute Beginners” e “Underground”) e singles (“Dancing in the Street”, com Mick Jagger).

E então, da mesma forma fulgurante como estourou em 1972, a chama Bowie parece ter começado a apagar a partir de 1989.”

Bowie que somou, que marcou, que raiou, deixou o seu adeus.Mas não digo que isso foi um adeus, pois ele será eterno em nossas lembranças e em suas artes!