“O CÂNCER ME FEZ VIVER A VIDA QUE SEMPRE QUIS” – SABRINA PARLATORE

Durante anos e anos vivi uma vida supercorrida. Sempre atolada com o trabalho, nunca respeitei meus limites. A saúde? Não era lá uma das minhas prioridades. Troquei o dia pela noite, vivi estresses diários — daqueles em que quando você chega em casa só quer deitar na cama e nem pensar no amanhã. Capturava tudo: o trânsito, a preocupação com a violência e tudo de mais opressor que a cidade de São Paulo me oferecia. Uma hora não teve jeito: o corpo e a mente entraram em conflito e sem eu nem perceber deram tilt. Até hoje acredito que o câncer foi a maneira mais forte que meu corpo encontrou para avisar: “Ei, Sabrina, alguma coisa está errada, menina”. E foi por acaso que percebi esse chamado. Passando a mão no seio, notei um caroço do lado esquerdo. Por sorte, o tumor estava ainda no estágio inicial.

Na hora em que recebi o diagnóstico, me veio um sentimento de imediatismo. Queria resolver logo, tirar cada célula da doença que aos poucos estava enfraquecendo meu corpo. Mas as coisas não são assim, principalmente com uma doença como o câncer. Percebi que a palavra de ordem durante todo o processo foi paciência. Paciência para me informar, paciência para me tratar, paciência para ouvir e paciência para falar. Mais uma vez tive sorte e consegui me rodear de pessoas que puderam fornecer as informações de que precisava para conseguir me manter calma e o carinho, apoio e alto-astral que me fizeram me sentir segura.

Desde o momento em que descobri o câncer, durante todo o tratamento — a cirurgia, as 16 sessões de quimioterapia e as 33 de radioterapia — e até hoje, sempre passam as mesmas perguntas pela minha cabeça: será que valeu a pena passar todos esses anos me desgastando, ultrapassando meus limites? Conversando com outras meninas que descobriram o mesmo tumor que eu, vi que muitas também tiveram o feeling e diziam: “Me desrespeitei, abusei demais da minha saúde”. Com o tempo, descobri que não, não valeu a pena. Aprendi que a gente precisa se respeitar antes de tudo. Priorizar a saúde tanto física quanto mental. Acredite: é um dever, mais até que um direito, encontrar um equilíbrio na vida — entre seu trabalho, sua casa e sua distração. Senão, pra que todo esse esforço?

O câncer é aquela doença do qual os médicos não conseguem apontar um agente causador, mas sabe-se que o stress é um deles. Claro, tem o fator genético, hereditariedade, alimentação, um conjunto de coisas. Mas intimamente tenho a convicção de que o stress contribuiu demais para o início da minha doença. Em alguns momentos até pensava que não era possível estar passando por toda essa pressão sem pagar preço algum.

E paguei. Apesar de tudo, descobri que psicologicamente sou muito forte, já enfrentei muitos trancos, e esse foi mais um deles. Não foi a pior coisa que aconteceu na minha vida, só mais um momento difícil e que eu resolvi encarar da melhor forma possível. Uma hora a ficha caiu e disse pra mim mesma: “Não vou me abater, é difícil, mas não posso abaixar a cabeça”. A partir daí, comecei a cuidar da minha alimentação, aproveitei cada minuto de descanso, tinha dias em que simplesmente não queria fazer nada, e pela primeira vez na vida me permiti não fazer. Respeitei muito o momento pelo qual meu corpo e minha mente estavam passando.

Ninguém precisa descobrir um câncer para perceber que está passando dos limites — como eu precisei. Se cuide, tenha tempo e pense em você mesma. No final, é você que tem que se importar com você, ninguém vai fazer isso no seu lugar. Hoje sou uma pessoa diferente, não só porque sou uma sobrevivente do câncer de mama ou porque passei pelos momentos mais dolorosos da minha vida, mas porque vivo do jeito que sempre quis viver. E você, vai continuar vivendo assim? /’

Fonte: M de Mulher