Ciência não é opinião (nem internet)

Provavelmente você já deve ter escutado que não é saudável cobrir toda a pele: “a pele tem que respirar”. É bem provável que você não saiba de onde veio essa história, nem a quanto tempo ela foi inventada.

Esse é um “conhecimento” informal, passado de pessoa a pessoa: “Todo mundo sabe disso”. Mas como diziam nossas mães, “você não é todo mundo”. Então, porque EU FICO REPETINDO isso? de onde vem essa informação? E mais importante, quando inventaram essa história?

Esta teoria foi inventada por Empedocles e Platão, que viveram na Grécia antiga, em torno de 500 a 400 anos antes de Cristo. Com a tecnologia que havia na época, as observações dos aspectos microscópicos do corpo não era possível e havia um pouco de imaginação envolvida. A teoria era que o ar entrava pelos poros, “respirando os vasos sanguíneos”, enquanto o ar que entrava para os pulmões tinha a função de resfriar o corpo. Muitos anos depois, Galeno, que viveu entre os anos 129 e 217,  estudou diversas áreas do conhecimento humano, incluindo anatomia, fisiologia e patologia. Galeno também formulou teorias sobre o funcionamento do corpo humano criando a teoria do humores. O corpo seria divido em 4 substâncias maiores, que, quando em desbalanço, causavam doenças; bile preta, bile amarela, sangue e catarro. A partir de 150 depois de Cristo, não era permitido a dissecção do corpo humano, e o conhecimento médico estacionou, ficamos mais de mil anos sem avanços significativos. Até os anos 1700 fazia-se sangrias em pessoas doentes por conta destas teorias.

Desenho medieval representando o sistema circulatório conforme a teoria de Galeno.

Hoje sabemos que muitos aspectos do corpo humano foram descritos com precisão àquela época, mas também existiram erros grosseiros que permaneceram por um longo período e, até hoje, são repassados de pessoa à pessoa, como “a pele respira” do começo da nossa conversa.

Por que isso aconteceu? Porque não havia ciência. Porque a autoridade de quem falava era mais importante do que o que realmente acontecia. O fato científico ficou em segundo plano.

Tudo isso começa a mudar a partir de um experimento simples, mas que na sua época mudou a maneira como entendemos o funcionamento do corpo humano, e como desenvolvemos a medicina.

Em 1747, James Lind, um médico da Marinha do Reino Unido, estava tratando de marinheiros acometidos por escorbuto, uma doença causada pela falta de vitamina C na alimentação das tripulações que viajavam por longos período no mar. A doença era fatal para uma grande parte dos marujos, causando sangramentos, feridas na pele e perda dos dentes. Naquela época não se sabia a causa da doença.

Descrição do escorbuto por James Lind

James Lind então fez um experimento com 12 marujos com sintomas de escorbuto. Dividiu em 6 pares e administrou 6 tratamentos diferentes: (1) meio litro de cidra, (2) 25 gotas de elixir de vitriol, (3) meio copo de água do mar, (4) um comprimido de alho, mostarda, rabanete, bálsamo do Peru e mirra, 3 vezes ao dia, (5) duas colheres de vinagre 3 vezes ao dia e (6) duas laranjas e um limão por dia.

No final de uma semana os marinheiros que comeram as laranjas e limões estavam cuidando dos demais.

Este foi o princípio da medicina baseada em evidência, do primeiro estudo científico controlado em seres humanos. Pessoas sofrendo da mesma condição foram submetidas a tratamentos diferentes e os resultados foram comparados, estabelecendo qual é o tratamento padrão para aquele problema. Algo que fazemos até hoje, com cada vez mais tecnologia e estatística para que possamos chegar a resultados cada vez melhores e mais precisos.

Os estudos clínicos atuais passam por diversas fases para que possamos compreender os mecanismos de doença, fatores de risco, fatores protetores e descoberta de novos tratamentos contra o câncer e qualquer outra doença. A lógica do estudo final, que comprova a utilidade de um novo tratamento, no entanto, continua a mesma. Dois ou mais grupos de pessoas com características semelhantes e comparáveis (mesma doença, doenças do mesmo tamanho, mesmos fatores de risco, distribuição de idades semelhantes, gênero e etnias, etc) são divididos e o tratamento é escolhido ao acaso. Os grupos vão sendo tratados da mesma maneira e observados ao longo do tempo. Os resultados são comparados e caso uma estratégia seja melhor que a outra, esta se torna o novo padrão.

Esta evidência científica cria a base para que, quando uma nova pessoa apresente aquela doença, nós possamos oferecer o melhor tratamento de cara.

Crianças que participaram do primeiro estudo com a vacina de Jonas Salk contra a poliomielite. Foram 1,8 milhões de pessoas no estudo.

Quando os pesquisadores juntam todas as informações, de todas as pessoas que participaram do estudo, e publicam os dados em forma de artigo científico eles estão reunindo toda uma experiência de tratamento. Quando lemos e entendemos como o estudo foi feito, seus pontos fortes e fracos, alcances e limitações, estamos adquirindo essa experiência de tratamento para nossos próximos pacientes. Por exemplo: um estudo com 500 pessoas demonstrou que usar curativo redondo é melhor que usar curativo quadrado para pessoas com corte no joelho. Nenhum médico do mundo vai tratar 500 pessoas com corte no joelho ao longo da vida, é muita gente.  Tampouco um médico vai dividir seus pacientes em dois grupos para ver qual é o melhor curativo, nem vai fazer comparações estatísticas entre seus pacientes para “testar” quais de seus curativos foram melhores. Quando nós lemos o estudo científico nós adquirimos este conhecimento, nós adquirimos o conhecimento da humanidade. O conhecimento que nós vamos construindo em conjunto, como seres humanos.

Nosso próximo paciente vai ser atendido da melhor maneira que existe, não porque nós somos pessoas iluminadas, recebemos um conhecimento divino, somos dotados de “inteligência superior” e por isso temos toda a autoridade do mundo, mas porque nós adquirimos o conhecimento da evidência científica. Nós estudamos a experiência científica que foi apresentada por outros médicos e grupos de pesquisa e praticamos a medicina baseada em evidência.

Podem ter certeza, quem não segue dados científicos, não está oferecendo o melhor tratamento para seus pacientes. Quem não oferece tratamento baseado na experiência de centenas, milhares ou milhões de pessoas tratadas dentro do rigor científico e comparados formalmente, está causando malefício para o próximo paciente com aquela doença.

O tempo da autoridade acabou, o que precisamos hoje são de profissionais capazes de entender e produzir dados científicos. Que tratem seus pacientes com a melhor evidência e que contribuam para a evolução dos tratamento, se tornando, eles mesmo, novos pesquisadores.

A “autoridade” e a internet

A discussão entre a ciência e autoridade, até pouco tempo atrás, estava restrita a ambientes acadêmicos, faculdades, congressos e revistas científicas. No entanto esta discussão se modificou recentemente com o surgimento da internet. Hoje, os títulos acadêmicos utilizados para “tentar passar autoridade” mudaram para o número de seguidores e likes. Quanto mais seguidores e curtidas, melhor é aquele sujeito: “Se tem um bando de gente que segue e curte, só pode ser um cara bom”. Certo? Errado, muito errado.

Por toda a internet a gente vê um monte de gente que faz coisas, por vezes arriscando suas vidas, para agradar o público. A vida pelo like. Gente que tira foto em cima de edifícios, que mergulha com tubarão, que corre e empina carros e motos, que expõe o corpo, tudo pra ter aprovação, fama e por vezes para ter ganhos financeiros.

Tudo pela fama na internet.

Em medicina isso é particularmente perigoso. O indivíduo se auto intitula especialista em X, Y ou Z e sai fazendo vídeos, posts e o que quer que seja. Tudo para agradar o “internauta”, sem o mínimo de compromisso com a verdade. É particularmente comum alguns padrões:

  • Todos os médicos são “caretas” só fazem coisas baseadas em pesquisa, eu sou um cara bom e entendi um negócio que só eu sei, o resto não sabe. Marque uma consulta comigo, é cara mas vale a pena.
  • Todo mundo leu o mesmo estudo mas só a minha interpretação foi a correta, todo mundo errou, me siga. E não esqueça de curtir e compartilhar.
  • Eu sou o salvador da pátria, descobri um remédio que cura tudo, mas a indústria farmacêutica / os Estados Unidos / a NASA / os extraterrestres / o capeta em pessoa, não quer liberar. Compre de mim, aqui está o site.
  • Veja como eu sou forte, eu faço academia e tomo um monte de “suplemento”. Quer ficar também? Marque aqui comigo, e compartilhe meu stories.
  • E tem as clássicas da oncologia: “câncer não mata, o que mata é o tratamento”: compre minhas ervas, “câncer é um fungo”: compre meu livro de alimentação, “câncer é ácido”: compre meu filtro de água alcalina, “seu médico é um pilantra que ganha dinheiro porque você está doente”: venha tratar comigo.

Pessoal, vídeo, post, fotos, enfim, qualquer coisa na internet, não tem nenhum compromisso com a ciência. Tem um monte de gente que vai fazer apenas para benefício próprio. Temos sempre que questionar os dados, a ciência, o fato. Vale lembrar da nossa mãe, não existe “todo mundo sabe”, a gente não é todo mundo. Por que EU ACREDITO nisso? Eu acredito na informação ou na pessoa que disse? Tem base científica ou é um “chute”? A pessoa esta comunicando uma informação séria ou ela quer apenas o like/seguidor/clique?

Alexander Fleming, o cientista que descobriu a Penicilina, antibiótico usado até os dias de hoje.

E vale lembrar a máxima: o objetivo da ciência não é agradar ninguém. O objetivo da ciência é compreender os fenômenos que nos cercam. Compreender a verdade científica. Sempre questione. Só com a ciência progredimos. Só a verdade interessa, independente se ela nos agrada ou não.

A verdade não faz caridade. Vamos em frente.

Texto disponível no site do Dr. Felipe em http://drfelipeades.com/2019/03/05/ciencia-nao-e-opiniao-nem-internet/


Dr. Felipe Ades – Médico Oncologista
Diretor científico do Instituto Quimioterapia e Beleza