NOELY YASSUHARA

Sou a Noely,

Tenho 49 anos, sou descendente de japoneses, disciplinada, sempre fiz exames anuais de mamografia, ultrassonografia, papanicolau e todos os outros para me assegurar que minha saúde física estava em ordem. Sempre procurei ter uma alimentação saudável. Não bebo, não fumo, só era sedentária e estressada, mas nunca me descuidei da saúde física.

Minha estória com o câncer de mama começa em 18/03/2014, quando ao fazer meus exames de rotina, mais precisamente, a mamografia, o técnico pediu para repetir o exame, pois tinha dúvida da imagem. Depois da mamografia, o mesmo aconteceu com a ultrassonografia. Dois exames que seriam retirados após 05 dias, seriam-me entregues no mesmo dia, com a orientação de procurar rapidamente um médico.

Enquanto esperava o resultado, por ironia do destino, na tv da sala de espera da clínica estava passando “Voltando a Sonhar”. Aquele filme de uma mulher que descobre ter câncer de mama e sua vida muda bruscamente e ela procura incentivo para enfrentar as dificuldades junto a sua família.

Nem consegui assistir o filme direito, achei que era um aviso divino e só chorava. E quando recebi os exames, o que eu fiz foi ir à igreja que existe ao lado da clínica, a Paróquia Santíssima Virgem e colocar tudo na mão de Deus, pois a única certeza que eu tinha no momento era que eu estava impotente, não podia fazer mais nada a não ser entregar meu destino a vontade dele e esperar.

Após essa sincera conversa com Deus, as respostas vieram rapidamente.

Consegui uma consulta com o ginecologista, que logo me encaminhou para o exame de core- biopsia. Esse exame leva aproximadamente 30 dias para ficar pronto. Ele chegou às minhas mãos em menos de 15 dias.

Estava confirmada a suspeita: Carcinoma Ductal Invasivo.

Tumor pequeno. Menos de 0,7cm. Tamanho de um feijão. Mas mesmo assim, pensei: “- A morte existe e está aqui na minha frente.”.

Passei uma série de orientações para meu marido, caso eu morresse. Na minha concepção eu precisava deixar tudo em ordem e só após isso passei a focar no tratamento.

O mastologista me tranquilizou, porque era um tumor pequeno e foi descoberto no início. Assim, o protocolo seria: cirurgia e radioterapia. Em 60 dias poderia voltar a trabalhar.

– Que alívio!

Porém, o mastologista explicou que durante a cirurgia se realiza outro exame. O exame do linfonodo sentinela. Esse é para ver o percurso do sistema linfático e se o primeiro linfonodo que recebe a drenagem do órgão acometido pelo tumor (gânglio) teria sido atingido. Caso um tivesse sido atingido, todos os outros seriam retirados, realizando a linfadenectomia axilar, que é a remoção de um ou de um grupo de linfonodos da axila e eu iria para a quimioterapia. Caso o linfonodo sentinela não estivesse sido atingido ficaria com o protocolo inicial.

Pensei: “- Claro que não vou esvaziar a axila. O tumor é pequeno, não é agressivo e eu descobri no começo. Não precisarei fazer quimioterapia.”.

Costumo dizer que essa fase foi representada pelo velho ditado: “Em cada enxadada vem uma minhoca”.

Fiquei sabendo do meu esvaziamento na sala de recuperação pós-cirúrgica. O enfermeiro me identificou como a paciente que esvaziou a axila. Não queria acreditar no que estava ouvindo. Não poderia estar acontecendo aquilo. Achei que ele estivesse me confundindo, mas não havia nenhuma outra paciente no local. Resolvi esperar a visita médica. Enfim, não aceitava ir para a quimioterapia.

Até a confirmação da necessidade da quimioterapia, vieram várias perguntas: Como uma pessoa com o meu perfil: não bebe, não fuma, se cuida pode ter câncer? E, como alguém que descobriu o câncer no começo, pode ir para a quimioterapia? Por que mandar alguém que descobriu um tumor tão pequeno ir para um tratamento tão agressivo? Seria mesmo necessário? Por que tudo isso está acontecendo comigo? Estas foram algumas perguntas que mais fiz entre o diagnóstico do câncer de mama e parte do tratamento.

A oncologista foi taxativa. O tratamento com a quimioterapia era necessário para diminuir as possibilidades de alguma célula ter caído na circulação e ter se instalado em outros órgãos, o que causaria a metástase.

Seriam 4 doses de quimio “vermelha” (AC- Adriamicina e Ciclofosfamida) a cada 21 dias e 12 doses de quimio “branca” (T – Taxol) toda semana. Enfim, foram 6 meses de quimioterapia.

A cirurgia aconteceu no final de junho e em julho começaram as doses “vermelhas”. Não aceitar o tratamento com a quimio, tornaram as coisas um pouco difíceis, porque eu queria muito saber o que ia acontecer comigo para eu me preparar para os efeitos colaterais. Eu precisava muito estar no controle da situação. Eu queria saber o que eu poderia fazer evitar qualquer sofrimento ou minimizar os efeitos colaterais. Eu queria que as coisas saíssem do meu jeito.

Mas o tratamento de câncer é uma impressão digital. Cada paciente tem uma reação. Eu tive muito pouca reação. Da enorme lista de possibilidades tive muito enjoo, os cabelos caíram após 15 dias da primeira sessão de quimioterapia e tive muita prisão de ventre, indo até parar no hospital. Mas nada que não pudesse suportar. Enfim, não precisava de tanto preparo para enfrentar a quimioterapia.

Foi nessa fase, a das “vermelhas”, que tive tempo suficiente para refletir sobre minha vida, minhas atitudes, meus conceitos, porque com enjoo o tempo todo, as únicas coisas que você consegue fazer é dormir, rezar e pensar.

E foi no período das sessões de quimio “vermelha” é que muitas coisas foram desvendadas para mim. Esse período foi de muita introspecção e reflexão.

A mais importante que eu percebi foi a que eu não estava doente só fisicamente. Eu estava muito doente em outras partes de mim. Minha alma estava doente.

Percebi que enquanto não curasse minha alma, nenhum tratamento seria eficaz.

Percebi o quanto não cuidava da Noely, o quanto não me dava valor, o quanto me cobrava, o quanto queria controlar tudo e todos, o quanto me frustrava quando as coisas não saiam conforme meus projetos e planejamentos, o quanto não aceitava ser contrariada. E numa lista de prioridades, eu nem fazia parte dela.

Essas contrariedades me magoaram, me frustraram, me desequilibraram e me deixaram doente sentimentalmente, espiritualmente e fisicamente.

Quando passei ter consciência de que não tenho controle das pessoas ou das situações, que as coisas acontecem independentes dos meus desejos e planejamentos, de que tenho que lutar com as armas que me são disponíveis, de que não posso fugir das minhas lições, de que posso ter um tempo para mim e ser uma das minhas prioridades, tudo ficou mais leve.

Passei a enfrentar as situações conforme me apareciam, para cada uma há seu tempo, tanto que as sessões de quimio “brancas” foram muitos suaves, sem nenhuma reação. Digo até que foi um período muito bom, assim como o período das radioterapias que foram 30 sessões.

Hoje estou apenas na hormonioterapia, tomarei o tamoxifeno por 10 anos. Ainda faço fisioterapia, drenagem linfática e psicoterapia. Tudo para me sentir bem. Fiquei com algumas sequelas: ainda tenho formigamento nas mãos, pressão no local da cirurgia, mas nada que me impeça de viver e bem.

Ainda disputo os primeiros lugares da minha lista de prioridades com alguns compromissos, mas tenho conseguido ficar entre os 3 melhores colocados. Tenho de cuidar de mim para ficar bem e eu estando bem, o restante também fica bem.

Tento ser mais serena situações do dia a dia, principalmente aquelas mais complicadas. Tento viver um dia de cada vez e ser flexível nas surpresas que me aparecem.

O câncer é uma doença assustadora num primeiro momento. Mas hoje, existem tantos recursos que colaboram com a cura, que o inimigo não é tão feio como falam. Mas não é por isso que devemos ignorá-lo, é preciso ter cuidado e descobri-lo no início.

Eu o descobri no início e tive tantas ocorrências…

Por isso fica a dica, cuidem-se, façam os exames de rotina, sejam flexíveis com as situações que aparecem. Procurem o equilíbrio. Tudo tem uma saída. E tudo passa.

Fiquem com Deus.