FLÁVIA FLORES

Me chamo Flávia Flores, natural de Florianópolis, tenho 38 anos e tive um filho no começo da minha adolescência, atualmente Gregorio tem 22 anos. Muitas pessoas acham que eu tenho 22 anos… acho que a minha vontade de viver não deixa eu envelhecer, e hoje posso provar que “o cancer, se não mata embeleza”; porque comigo foi assim!

Trabalho com moda desde os 13 anos de idade e apesar de gostar da área, sempre me questionei o motivo de me dedicar a algo que considerava tão fútil e superficial. 

Tentei até mesmo ser piloto de avião, mas acabei me formando em Administração de Empresas. Mesmo assim minha carreira sempre seguiu atrelada à moda apesar das inúmeras tentativas de mudar meu seguimento profissional. Já fui modelo, dava aulas de passarela e como posar para fotografias; fui figurinista, representante comercial de marcas de luxo, gerente comercial, gerente de marketing, desenvolvi produtos, e era muito boa no que eu fazia.

Em 2012 eu estava passando por uma fase em que sentia necessidade de me encontrar espiritualmente. Morava em São Paulo e trabalhava muito, eu sentia que estava patinando, aquilo não me levava a lugar nenhum. Eu nao estava feliz profissionalmente, amorosamente, pessoalmente, totalmente! Fiz um programa espiritual onde eu tinha direito a fazer um pedido a Deus, não sabia o que pedir, então, por estar infeliz com tudo, pedi para que minha vida mudasse completamente, e na mesma semana que terminei o programa fui diagnosticada com cancer de mama. Era outubro de 2012 e eu pensava: “Poxa, Deus! Poderia ter me mandado outra coisa! Quem sabe uma viagem ao exterior, um novo amor, um novo rumo profissional…. Mas não um câncer”.

Por cerca de 10 dias após o diagnóstico fiquei deprimida e chorando deitada na cama do quarto de hospedes da casa da minha avó, que então foi meu quarto durante o tratamento. Eu sentia vergonha apenas de me imaginar na ruas sem cabelo, ou usando um lencinho simplório, que a quem me visse de fora pudesse perceber o cancer, o lenço pra mim naqueles dias era atestado de doença, precisaria comprar uma peruca!

Tudo o que eu conseguia associar a palavra câncer era: gente doente, gente na cama, gente ficando inchada por causa do tratamento, gente sem cabelo, gente sem cor, gente com dor, gente de lencinho com as orelhas de fora, gente sem forma e o pior, gente sem alegria.

Eu namorava há poucos meses quando soube da doença, e o meu namorado simplesmente desapareceu. Até nas redes sociais ele me bloqueou e nunca mais atendeu minhas ligações. O irônico é que antes de tudo acontecer, nós já tínhamos planos para morar juntos. Hoje em dia eu sei de muitas mulheres que passaram pela mesma situação quando se viram diante dessa doença, como eu, foram abandonadas. Seus companheiros e até amigos e famílias tomaram chá de sumiço. Por sorte tenho uma família incrível que está sempre ao meu lado: minha mae, que se tornou minha melhor amiga; minha família que não se dava bem se uniu em volta de mim, meu filho sempre esteve pertinho de mim, meus três irmãos, meu pai e minha avó materna, tive que me mudar para Florianópolis e me tratar perto da família. Sem condições de ficar sozinha em São Paulo fazendo o tratamento.

Passado o desespero, que é super natural, resolvi reagir e aceitei a doença e o tratamento; decidi que eu lidaria com ele da melhor maneira possível. 

Passado o baque inicial notei que meus amigos haviam sumido. Liguei para cada um para saber o que estava acontecendo e eles pareceram constrangidos. Então me dei conta sobre o quanto era difícil para as pessoas lidarem com essa nova realidade. Eles ficavam cheios de dedos para lidar com uma pessoa doente. Talvez eu fizesse o mesmo na situação deles.

Foi então que um mês após o diagnóstico, um dia antes da minha primeira quimioterapia, veio a ideia de criar uma página no Facebook, a “Quimioterapia e Beleza”, para que todos vissem que eu não estava à beira da morte e que poderia, na medida do possível, levar uma vida normal. 

As pessoas me ligavam para saber em que hospital eu estava internada e se poderia receber visita… Como assim? Eu estou na praia, ou jantando com as amigas… Ninguém tinha noção de que a vida era a mesma, so que eu estava passando por um tratamento, claro que tinha dias que não me dava vontade de levantar da cama, mas nos demais dias eu queria viver!

Na pagina eu comecei a compartilhar minha rotina, mostrava como eu me alimentava bem, mostrava as perucas que eu comprava, mostrava os lenços que ganhei, assim meus amigos me viam no facebook feliz, cheia de novidades então muitos deles voltaram, me visitavam, ou me acompanhavam no facebook.

Nao sei por que, mas alguns amigos até hoje fogem de mim.

Em novembro de 2012 fiz mastectomia dupla seguida do implante de próteses, em dezembro iniciei a quimioterapia e meu cabelo começou a cair no dia 21 de dezembro de 2012, exatamente no dia em que estava marcado o tão falado “dia do fim do mundo”. Naquele dia só o meu mundo acabou.

Apesar do choque pela perda dos cabelos, eu estava preparada para aquele momento. Os cortei bem cuidadosamente para fazer uma peruca com os fios depois, mas jamais cheguei a fazer. Meus cabelos foram destinados a serem de outra pessoa. Os dei de presente a uma das seguidoras que acompanha a minha página que não tinha dinheiro para uma peruca e que estava completamente deprimida por conta da perda de seus cabelos. Eu nunca a vi pessoalmente, mas me senti imensamente feliz por tê-la ajudado. 

Hoje em dia entendo porque meu destino sempre acabava me levando de volta ao mundo da moda e da beleza. Tudo o que aprendi em anos de trabalho na área me ajudaram a fazer com que eu continuasse me sentindo bonita e isso manteve minha autoestima la em cima, apesar de todas as adversidades. O câncer não precisa ter cara de infelicidade. Quem disse que uma mulher com câncer não pode se arrumar, se maquiar e disfarçar os efeitos que essa doença traz? Afinal a vida nao para, precisamos ir ao mercado, pegar o filho no colegio, que façamos essas tarefas com um sorriso no rosto, uma maquiagem bem feita, uma peruca ou um lenço bem amarrado, sem vitimismo e sem assustar as pessoas na rua; nada de sair de casa sem produção, senão ninguém vai querer chegar perto de vc.

Durante o tratamento eu nao sai de casa nem um dia sequer sem uma boa produção, como eu perdi cada pelo do corpo, precisava usar cílios postiços diariamente, refazer o traço da sombrancelha e usava blush para tirar a cara de minhoca e corar as bochechas falseando um bronzeado ou uma cara de saudável.

Com isso em mente comecei a compartilhar tudo o que vivenciei durante meu tratamento quimioterapico que foi ate maio/14, em minha página no Facebook. Se aprendo uma nova maneira de amarrar o lenço na cabeça, eu ensino, faço vídeo, se tenho uma nova dica em relação a perucas, como lavar, como guardar, eu escrevo. Muitas pessoas passaram a me procurar perguntando dicas específicas sobre como se arrumar, sobre o tratamento e sobre muitas coisas relacionadas ao câncer.

Não só pacientes de câncer escrevem comentários e perguntas no “Quimioterapia e Beleza”, mas familiares e amigos de pessoas que estão enfrentando a doença também. São comuns mensagens comoventes falando sobre como ter se inspirado em minha alegria de viver fez diferença em suas vidas. No entanto, a maior diferença aconteceu realmente em mim. Através dessas pessoas encontrei uma razão, uma sensação de estar fazendo algo realmente importante mostrando que é possível viver e sobreviver a esta doença sem se vitimar e encarando tudo de frente. 

Aos olhos de alguns poucos que já comentaram em minha página, que eu não deveria me preocupar com vaidade num momento tão terrível, que a vaidade esta  ultimo lugar; mas eu discordo, sem autoestima você se entrega, definha. 

Ficar em casa na cama esperando o tempo passar nao fazia sentido pra mim, de repente eu estava em vários jornais, revistas, tvs e cada vez mais próxima das outras pacientes e todos ao seu redor, e foram 800 seguidores, 2.000, 10.000 e hoje mais de 89.000 interessados no meu conteúdo. Chegamos a ter 2milhoes de visitas na pagina e nao são apenas pacientes que me procuram; são familiares e amigos de pacientes.

Hoje, quem nao tem ou teve um caso de cancer na família ou de algum amigo?

No final das contas, cílios postiços, maquiagens, lenços e perucas foram as ferramentas que encontrei para tirar o câncer do patamar de ‘doença-monstro’ a qual ninguém sequer pode mencionar, e consegui inspirar tantas mulheres a passar pelo tratamento em alto estilo, bom humor e sem medo.