APÓS VENCER CÂNCER, ERICK RENASCE COM CORRIDA: “HÁ VIDA DEPOIS DO PESADELO”

Comissário de bordo de uma companhia aérea francesa, Erick Ferrari, de 36 anos, hoje se divide entre Paris e São Paulo. Neste domingo (18), porém, ele será mais um entre os 33 mil participantes da Maratona do Rio. Participar da prova virou um desafio para o corredor carioca. Isso porque em dez meses ele superou um câncer agressivo no estômago, passou por quimioterapia e renasceu com a esperança de que conseguiria correr 42km novamente.

– Já tenho 90% de chances de sobreviver nos próximos quatro anos e eu pretendo me esforçar para ser digno desse milagre. Agora, quero fazer mais e reclamar menos. Manter o bom humor e agradecer. Quero correr até longe para mostrar a quem ainda está lutando que é possível. Que há vida depois do pesadelo – afirmou o atleta.

Erick revela que tudo começou com uma estranha coincidência. Um ortopedista havia receitado, além do tratamento para a lombar, anti-inflamatórios caso viesse a ter dores. Com o passar dos dias tomando o medicamento, ele parou no hospital com problemas gástricos. Ao fazerem a endoscopia, os médicos acharam algo a mais e decidiram fazer a biópsia. Era um tumor entre o estômago e o esôfago, extremamente agressivo. Para se ter ideia do susto, a estatística lhe dava cerca de 18,9% de chances de sobreviver.

“Eu não sentia nada, dor alguma. Estava forte como sempre, correndo, malhando e trabalhando. E um exame dizia que minha vida estava acabando rapidamente”

– A minha irmã anunciou naquela mesma semana que estava grávida e a família estava em festa. Era o primeiro neto dos meus pais, o maior sonho deles e eu me sentia culpado. Não queria contar para ninguém. Como eu iria ter coragem de dizer “Desculpe estragar a alegria, mas estou com câncer e provavelmente não vou sobreviver até o Natal” – recordou.

Erick estava com consultas marcadas e seria operado na França sem ninguém saber. Mas em um voo à trabalho para o Rio o tumor rompeu um vaso e o comissário teve hemorragia interna grave. Ficou hospitalizado por 11 dias. Assim, não tinha mais como esconder. Teve de contar à família e aos amigos que estava com problema grave de saúde. Voltando a Paris, viu que tinha menos tempo do que o previsto e o médico decidiu operá-lo imediatamente.

– A cirurgia demorou mais de oito horas e no lugar do tumor de 3cm diagnosticado 25 dias antes haviam três tumores. O original, por sinal, era de 6cm. Eu estava fraco demais, não reagi 100% como deveria e houve complicações em seguida. Passei 16 dias na UTI. Fiquei ligado em muitos aparelhos, sonda nasal, três drenos na caixa torácica e milhões de agulhas. Não me movia do pescoço para baixo, sentia muita dor e medo – contou.

Depois de 23 dias, Erick foi liberado a ir para casa. Antes de sair, ele perguntou ao médico se voltaria a correr 42km, afinal os pulmões estavam danificados e os danos podiam ser permanentes. Ou doutor respondeu com um “Claro que não!”. Dias depois, Erick passaria a fazer quimioterapia.

– Eu fiquei triste e ele completou: “Nesse estado que você está, não acredito que corra nem 50 metros! Mas daqui a algum tempo, com treinos…”. Então eu vi que era possível. Levei isso como objetivo. Sou maratonista e ninguém vai tirar isso de mim! – frisou o atleta, naquele momento.

As inscrições para a Maratona do Rio deste ano estavam abertas, e Erick foi um dos primeiros a garantir um lugar na prova. Para surpresa dele, um batalhão de amigos se inscreveu para correr ao lado dele. A meta estava traçada, mas a quimioterapia destruía parte do sangue e isso o impedia de fazer muito esforço, além de não respirar bem. Ainda assim, ele conseguia correr dois ou três quilômetros.

– Foi uma época difícil. Precisava equilibrar o risco com as dores, problemas financeiros que chegavam e com minha razão e memória alteradas pelos fortes remédios. Em outubro do ano passado, dez meses depois do diagnóstico, terminei a quimioterapia e puxei tudo que conseguia. No fim de fevereiro, corri a Meia Maratona de São Paulo. Foi divertido, mas o resultado não. Fui uma hora mais lento que o meu recorde e parei para caminhar várias vezes – lembrou.

Erick não abaixou a cabeça. Pelo contrário, seguiu treinando ainda mais, com foco e sentia melhoras na saúde de uma forma geral. Não tinha certeza se conseguiria correr os 42km, mas buscava forças para ir adiante nessa busca. Ele estava com algumas sequelas: não poderia mais comer açúcar, era sensível à cafeína e não sintia os pés e os dedos das mãos. Decidiu estudar como os maratonistas diabéticos corriam sem açúcar. Tudo para seguinte em busco do maior desejo.

Em março, o médico que operou Erick – e que estará na Maratona do Rio – ficou impressionado com os exames que mostravam o desenvolvimento dos pulmões, pois estavam fortes e grandes. Em abril, o comissário completou a Meia Maratona de Paris, com um tempo melhor que o da prova feita em São Paulo. E desta vez ele fez o percurso sem caminhar. Terminou bem e pronto para alongar a distância…

– Não sei como o meu corpo vai reagir durante os 42km, mas sei que minhas pernas estão prontas. As pessoas próximas ainda me tratam muitas vezes como se eu fosse de vidro, mas os números melhoraram para o meu lado – encerrou. 

Fonte: GLOBO ESPORTE