Especial Dia das Mães: confira o depoimento da Catmamãe Kaka e sua filha

Chegando o Dia das Mães e trazemos o depoimento da Catmamãe Kaka @katiacris e sua filha Debora, minicat

As duas são pacientes oncológicas e fazem tratamento para combater a doença

Mãe e filha na batalha. Incentivamos uma a outra.
No começo do tratamento da minha filha, houve um incentivo por parte dela pois me assustei muito, não imaginava que a minha filha com 15 anos iria desenvolver uma doença tão cruel, com a qual eu luto há tantos anos. Eu supunha qualquer coisa menos câncer e no dia em que ela recebeu o diagnóstico, eu passei muito mal. Praticamente tive que ser internada. Fui socorrida onde eu estava com ela e já queriam me transferir para o hospital onde eu sou tratada porque realmente perdi o chão e não tive forças. Estava sendo atendida no pronto socorro e recebi mensagens no celular: “Mãe, levanta pelo amor de Deus. Se for assim toda vez que eu vier para o hospital, não vou querer me tratar. Eu preciso que a senhora fique bem.”

Foi então que percebi que não poderia mostrar nenhuma das minhas fraquezas naquele momento, pois seria fundamental para que ela tivesse coragem de iniciar o tratamento. Com esse chacoalhão, pude prosseguir e assumi meu lugar de mãe, dizendo que tudo passaria e daria forças. A princípio nós não nos desgrudamos. Eu não conseguia deixar ela dormir nem no seu quarto, e sim comigo porque queria ficar perto dela durante 24h, sempre que precisasse. Foi muito difícil nos primeiros dois meses, porque ela sentia muitas dores e chorava muito. Mas eu sempre me lembrava da mensagem do começo, que me mantém de pé mediante a tudo o que temos vivido.  

2. Ainda em tratamento, você recebe o diagnóstico de câncer da sua filha adolescente, qual foi sua reação?

Eu não imaginava. Esperava qualquer doença para a minha filha menos o câncer. Me senti culpada porque o tipo de câncer dela é embrionário, ou seja, eu passei para ela no ventre. Primeiro bate um sentimento de culpa, mesmo sabendo que não passei voluntariamente, eu não sabia que tinha essa células. Foi a pior sensação que já senti na vida. Passei por muitos problemas na vida e achava que tinha sofrido muito, mas percebi que não sofri nada. Quando olhei minha filha com o rosto deformado, porque o câncer dela foi no olho,  chorando de dor e eu impotente, além de tentar confortar, passar horas debaixo do chuveiro tentando acalmar, colocando ela embaixo do meu peito tentando acalentar, mas com certeza foi a pior notícia, a pior dor e eu tive meu momento de fraqueza onde achei que não  conseguiria ajudar. Mas com a mensagem dela, que é uma menina muito guerreira, me mandando reagir por ela senão não ia nem se tratar, fui buscar forças por ela e me levantei, continuamos lutando juntas, como deve ser. Eu por ela e ela por mim. É esse o nosso combinado!         

3. Além de todo autocuidado no tratamento, temos agora a preocupação da pandemia do Covid-19, como vcs estão lidando com mais esse fator?                                                                                                                                                           

A questão do COVID-19 não assusta nós que temos câncer há bastante tempo, porque a gente já lida com tantos cuidados, e a princípio, não parecia ser algo tão sério. Mas agora tem sido preocupante, porque ela faz quimio a cada 15 dias e necessita estar internada por passar muito mal, eu a acompanho. Tenho lesões pulmonares então sou fator de risco iminente. Só que, sempre penso que a minha filha precisa de mim e eu preciso dela também, então estaremos bem se estivermos uma ao lado da outra. Sei que ela vai ficar mais tranquila se eu estiver lá. Então a gente tenta tomar todas as precauções de higiene, lavagem das mãos a toda hora e usar máscaras. A reação é viver com medo, mas o amor ainda é maior que tudo isso e não deixei de cumprir com minhas obrigações de mãe e estar com ela, acompanhá-la nas consultas e passar os dias hospitalares na sua companhia. O nosso amor é maior do que o medo do COVID.         

4. O que você destacaria como aprendizado desta luta da sua filha?                                                                                                                             

Meu maior aprendizado, com certeza, é que achava que eu era uma pessoa com uma história de sofrimento que ninguém tinha igual. Acreditava que já tinha sofrido mais do que qualquer pessoa. Quando eu ouvi do médico “a sua filha está com câncer” e tomei conhecimento do resultado do exame com o tipo de tumor, aquilo foi como se meu mundo desabasse. Senti uma dor que eu nunca tinha sentido em toda a minha vida. Foi aí que eu vi que todas as outras dores que eu já tinha reclamado não era nada. Percebi que muitas vezes eu reclamei de dores que eu podia ter me calado, podia ter enfrentado, porque tinha forças para enfrentá-las mas muitas vezes eu chorei e me escondi, achando que era demais para mim, mas não era nada perto da dor de ver um filho sofrer. 

Destaco que se temos os nossos filhos ao nosso lado com saúde, muitas vezes até dando trabalho, que a gente agradeça mais do que reclame, porque ter um filho sofrendo é a pior dor que uma mãe pode sentir na vida. Acho que pior do que vê-lo sofrer é perdê-lo. Mas eu agradeço a Deus por estar aqui, apesar de ter passado por momentos horríveis em coma na UTI e ter voltado, ressignificado a minha vida e entender porque Deus me manteve aqui com tudo isso…havia um propósito por trás de tudo. Meu maior aprendizado é não reclamar, porque existem dores maiores que não posso nem imaginar e nem passei por elas. Tudo que tenho passado é porque tenho capacidade de passar, nao reclamo de mais nada, apenas agradeço por tudo. Esse foi meu maior aprendizado.     

5. A relação de vocês ficou mais fortalecida?                                                                                                                                        

Sim, com certeza absoluta. Nossa relação ficou fortalecida e íntima. Ficou única. Nós já éramos muito próximas e amigas, mas agora somos dependentes uma da outra, nos aproximou mais. Ela voltou a ser meu bebê, porque eu tenho que dar banho, cuidar, passar pomada, enxugar, as vezes sustentá-la com o peso do meu corpo porque não consigo pegá-la  no colo. Consigo perceber quando ela está passando mal e já trago o saquinho, com seu olhar já abro o saquinho sem que ela precise pedir. As vezes ela fala para eu  descansar um pouco porque sabe do meu cansaço, das dores expressas no meu rosto apesar de não precisar revelar isso pra ela.  

Somos cúmplices uma da outra. Não tem preço ter na sua filha a sua melhor amiga. É muito bom, tiro muito proveito!    

6. Qual sua mensagem pra outras mães que estão passando pelo mesmo desafio que vcs?

É muito difícil falar sobre isso. O que eu diria para outras mães…, é uma dor tão grande que não podemos nem mensurar. Porém destacaria o meu aprendizado. Diria para tentar  fortalecer ainda mais a sua relação com o seu filho que passa por isso. Converso muito com outras mães durante o tratamento da minha filha tentando entender o sentimento delas e identificar a reação de cada uma. O que eu poderia sugerir é que continuem se esforçando, pois a situação nos obriga a ser melhores, mesmo com todos os obstáculos que enfrentamos por conta da nossa limitação com o câncer, vira uma formiguinha perto da limitação do nosso filho. Pode ser até menor do que a nossa, mas um filho precisa da gente e nos transformamos em um leão para proteger a cria,  mesmo machucada e debilitada. A mãe não sai de perto da cria, não larga. Digo para todas as mães que vão ler essa entrevista: fiquem perto dos seus filhos o máximo de tempo possível e deem o melhor de si, porque podemos muito mais do que imaginamos! 

Muito obrigada.