“O QUE NÃO MATA, EMBELEZA”

Era 4 de outubro de 2012. Dez dias haviam se passado da minha cirurgia de troca de prótese de silicone para aumentar os seios. Eu estava com o corpo inchado. As marcas dos pontos do procedimento cruzavam desordenadamente o meu tórax. Sentia-me como se tivesse sido atropelada. Mas eu estava radiante. Afinal, eu era muito vaidosa e estava feliz com meus novos 250 ml de silicone. Até que uma ligação mudou completamente tudo e toda a minha vida. Era meu médico querendo que eu fosse falar com ele pessoalmente. A notícia: eu tinha câncer.

Antes da cirurgia estética, os exames de controle haviam rastreado um carocinho na mama direita. Na verdade, eu já tinha sentido algo diferente no autoexame. Fiz todos os testes pré-operatórios, incluindo mamografia e ultrassom – que não mostraram malignidade. Meu ginecologista assegurou que aquilo era normal. Eu estava com uma das próteses rompida – e o carocinho sendo sempre ignorado pelos médicos, até mesmo pelo cirurgião plástico que não exigiu um laudo de um mastologista antes de me operar. Durante a operação, extraíram o nódulo e levaram para a biópsia. Foi enviado para quatro laboratórios diferentes. E assim veio a notícia terrível. Eu tinha 35 anos.

Ao ouvir as palavras do médico, revidei no ato: ‘mas, como? Onde? Era o carocinho.. Muitas imagens surgiram em minha cabeça: mulheres de lencinho, inchadas de remédio, carecas em cima de uma cama de hospital, soro, perucas. ‘Por que comigo, Deus?’, pensei. Chorei por mais de uma semana.

Me disseram que eu teria de tirar as duas mamas como prevenção, mas o médico usou a palavra ‘mutilar’ e foi um choque. Depois da segunda opinião, entendi que, sim, eu retiraria as mamas, mas que seria possível uma reconstrução imediata. Foi aí que senti que estava em boas mãos – escolhi uma equipe médica com maior afinidade; aqueles profissionais estudaram e eles fariam o melhor por mim. Também me senti acolhida na casa da minha família. Perguntei para a Dra Adriana: ‘vou poder usar um decote?’ Ela disse: Sim. ‘Vou poder usar um biquíni e dar um mergulho?’ Sim. A cena já mudou. A queda dos cabelos era o de menos. Pensei: ‘Vou comprar uma peruca, colocar cílios postiços e vou vencer’. Ali, toda a dor passou. Vi um cenário muito mais alegre ­– o que me deu forças pra começar. Pensei: ‘Quero sair à rua e ser notada como uma linda mulher que está vencendo uma batalha, e não uma coitadinha que está morrendo’.

Minha reação foi de luta e senti o início da descoberta de uma beleza mais profunda e verdadeira, muito maior do que aquele pedaço de silicone, ou que os meus cabelos cacheados que eu tanto amava. Retirei as duas mamas, passei por 30 sessões de quimioterapia, 28 de radioterapia, e há pouco mais de dois anos faço hormonioterapia. Tive força. Mantive o sorriso apesar das bombas químicas que brigavam com meu corpo durante o tratamento, e nunca desisti de manter a autoestima. Então eu, que trabalhei anos como modelo, comecei a pesquisar quais eram os artifícios de beleza que eu iria usar durante essa fase. Porque eu sabia que o meu tratamento ficaria muito mais fácil se eu me reconhecesse no espelho.

Por isso resolvi criar o projeto “Quimioterapia e Beleza”. Começou com uma fanpage no Facebook, fez sucesso nas redes sociais e virou um livro – o primeiro no mundo a abordar o tema câncer e beleza. Sinto-me muito feliz em ajudar milhares de mulheres em todo o Brasil e também no exterior . São posts sobre dicas de beleza, maquiagem, mil e uma formas de amarrar os lenços – que de tantos que ganhei, dei inicio ao “Banco de Lenços Flávia Flores”. Um hospital de Brasília acreditou no meu projeto e criou o site para me ajudar: os pacientes precisam se cadastrar no site, nos contar um pouco sobre suas características físicas e como querem o lenço. Assim, escolhemos o melhor para cada uma. Algumas têm pedidos específicos e tentamos escolher dentro do que elas pedem. Atualmente atendemos cerca de 500 pacientes por mês e já foram doados mais de 10 mil lenços. Também lançarei um documentário sobre minha história neste ano.

Há dois anos terminei a quimioterapia e hoje estou na reta final do meu tratamento: cumprindo o ciclo de hormonioterapia – o que deve levar de cinco a dez anos. Em um ano e oito meses farei uma reavaliação para saber como procederemos. Os efeitos colaterais são muitos: enjoo, insônia, ressecamento vaginal, sudorese, calor excessivo… Mas tudo isso me serviu de lição para a vida, me transformou numa pessoa melhor, com hábitos muito mais saudáveis, e ainda reencontrei um namorado que conheci nos Estados Unidos. Tenho tantos planos… Quero muito engravidar. Apesar de eu ter 39 anos agora, devo terminar o tratamento aos 41. Os médicos garantem que é possível ter uma gravidez saudável depois de todo esse tratamento. Tenho certeza que vou conseguir.

Depoimento colhido por Thais Botelho
Foto por Edson Lopes Jr

Fonte: VEJA